Questões de saúde e riqueza: como responder aos efeitos do coronavírus e do confinamento extremo?

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Por Mats Tunehag

Há boas e más notícias. Nós podemos nos alegrar pelo fato de que o menor índice de pobreza já registrado na história tenha acontecido na nossa geração. Desde de 1990, mais de um bilhão de pessoas saíram da extrema pobreza, sendo a maior parte, da China e India, e isso ocorreu não através de ajuda assistencial, mas do comércio, não por meio benefício ou caridade. O crescimento de pequenas e médias empresas é o fator chave dessas boas notícias.

A má notícia é que devido ao coronavírus, medidas de restrições e confinamento extremo,  arriscamos um grande retrocesso global. Nações Unidas, Programa Mundial de Alimentação, Organização Internacional do Trabalho, Instituto Internacional de Políticas Alimentares, Negócios Suécos, e outros, estão pintando cenários horríveis em uma escala macro: cerca de 50 milhões de crianças poderão cair na extrema pobreza. Centenas de milhões de empregos poderão ser perdidos. 260 milhões enfrentarão a miséria, e três dúzias de países correm risco de fome. 2.7 bilhões de trabalhadores são afetados pelas medidas de confinamento extremo. Os mais vulneráveis são parte do setor informal, e apenas na India, são 400 milhões de trabalhadores enfrentando grande empobrecimento neste momento. 50 – 70 por cento da população em 20 países na África esgotarão suas reservas de dinheiro e comida depois de 14 dias de quarentena.

Quando as vendas em comércios varejistas de roupas como H&M despencam pelo mundo, dois milhões de trabalhadores na indústria de vestuário em Bangladesh perdem seus empregos. Seus destinos são similares a mensagem que recebi de um amigo de Myanmar: “O que isso (confinamento extremo) tem significado para os pobres, que são parte da economia informal, é: sem emprego, sem dinheiro e portanto, sem comida. Não há rede de previdência social do Governo e certamente não há poupanças.”

Talvez possa ser como um professor de Stanford e ganhador do prêmio Nobel, Michael Levitt recentemente colocou: “Quando futuramente olharmos para isso, o dano causado pelo confinamento extremo excederá imensuravelmente quaisquer vidas salvas.”

Em face dessas previsões sombrias, ainda há boas notícias! Pessoas e nações já enfrentaram pandemias antes, saíram da pobreza abismal e venceram doenças terríveis. Então, o que podemos aprender com isso?

“Em 1575, a praga desceu sobre Milão. O Bispo da cidade, St. Charles Borromeo, se apressou tanto na ação quanto na oração. Certamente, ele exemplificou a máxima amada por Dorothy Day e outros, de ‘trabalhar como se tudo dependesse de nós mesmos e orar como se tudo dependesse de Deus’.

O Bispo Borromeo teve uma visão de mundo holística, trabalhando com Deus e pessoas para solucionar necessidades físicas, sociais, econômicas e espirituais. Ele persuadiu pessoas ricas a ajudar os pobres. Ele criou e ajudou hospitais e casas de quarentena. Ele instituiu as políticas de  distanciamento social e teve um amor e cuidado particular com orfanatos. Ele fez com que a igreja celebrasse cultos ao ar livre para reduzir o risco de propagação da doença. Mas ele também criou empregos ou apoiou um grande número de trabalhadores desempregados.

Borromeo percebeu que a praga não causava apenas um tipo de problema, e portanto não havia apenas um tipo de solução. Ele levantou fundos, e atendeu as necessidades imediatas como fome e cura. Ele também buscou uma solução digna e de longo prazo, criando empregos. Enquanto reconhecia e lidava com questões de saúde física e identificava necessidades socioeconômicas, ele também abordava o bem-estar espiritual das pessoas. Nós devemos aprender com sua visão holística e de soluções multi-dimencionais.

Porque empregos não são apenas uma fonte de renda ou sobrevivência; o trabalho é uma questão de dignidade do homem. Qual é o melhor caminho para ajudar uma criança pobre? Dê a seus pais um emprego! Caridade tem o seu lugar, e esforços de socorro são necessários. Mas para soluções de longo prazo, precisamos de uma mudança de paradigma no pensamento e na práxis, de esmolas, para a criação de emprego, de respostas, principalmente sem fins lucrativos, para soluções lucrativas.

Há uma necessidade de abraçar o trabalho como algo bom, e nós devemos reconhecer que negócios são uma vocação (de ‘vocare’- chamado). Negócios, têm um elevado propósito além de mero sustento ou retornos financeiros.

“Empresários, gestores e todos que trabalham com negócios, devem ser encorajados a reconhecer seu trabalho com uma verdadeira vocação e para responder ao chamado de Deus no espírito de verdadeiros discípulos. Ao fazer isso, eles se engajam na nobre tarefa de servir seus irmãos e de construir o Reino de Deus.”

Como Borromeo, nós buscamos uma transformação holística de pessoas e sociedades. E isto inclui a busca por um impacto positivo em múltiplos indicadores para múltiplos acionistas a medida que fazemos negócios.

Como na declaração do Manifesto de Negócios como Missão (2004): “Nós reconhecemos que há uma necessidade por criação de empregos e pela multiplicação de negócios em todo o mundo, visando o quádruplo resultado: transformação espiritual, econômica, social e ambiental.”

A visão de mundo importa e as ideias têm consequências. Temos muitos exemplos de ideologias devastadoras que dirigem a política com uma atenção limitada quanto às consequências. Pode-se comparar a saúde e a riqueza de pessoas e nações com a mesma cultura e língua como a Coréia do Sul e Coréia do Norte e a Alemanha Ocidental e Oriental. Podemos testemunhar, como um país potencialmente rico como o Zimbabue, mudou de celeiro para cesto vazio no Sul da África. A Venezuela, rica em petroleo, é outro exemplo trágico de como o desrespeito aos princípios básicos de criação de riqueza destruiu um país.

As politicas socialistas desastrosas e assassinas de Mao acabaram no final de 1970, quando Deng Xiaoping se abriu para os negócios e o país deixou o caminho da pobreza para entrar no caminho da prosperidade. Ele defendeu sua abordagem não comunista, mas pragmática, dizendo: “não importa se o gato é preto ou branco desde que apanhe ratos”.

Por outro lado do espectro, temos Israel. Que é um exemplo de uma nação pequena com recursos naturais limitados e com vizinhos hostis, a qual, em seu pouco tempo de vida, se transformou em um líder mundial próspero e inovador. Cingapura é outro exemplo, era pobre, e se tornou independente recentimente em 1965. Mas eles aprenderam com Israel. Hoje, é mais um país líder mundial; bem organizado, verde, seguro, limpo, e próspero.

Consequentemente, nós precisamos estar atentos às consequências do coronavírus e as medidas globais de confinamento extremo. Mas nós devemos também aprender com o passado, seus sucessos e fracassos, de Borromeo à Cingapura e seu principal líder por décadas – Lee Kuan Yew. Nós precisamos afirmar os valores intrínsecos do trabalho e dos negócios, e o poder de restaurar e criar saúde e riqueza. Nós precisamos ´ora et labora`, orar e trabalhar.

Conforme declarado no Manifesto de Criação de Riqueza de 2017: “O compartilhamento de riqueza deve ser incentivado, mas não há riqueza a ser compartilhada, a menos que tenha sido criada. O objetivo da criação de riqueza através dos negócios vai além da doação generosa. Negócios, tem uma capacidade especial de criar riqueza financeira, mas também têm o potencial de criar diferentes tipos de riqueza para muitas partes interessadas, incluindo riqueza social, intelectual, física e espiritual. A criação de riqueza através dos negócios provou ter poder para tirar pessoas e nações da pobreza. A criação de riqueza deve sempre ser buscada com justiça e com interesse pelos pobres. ”

A necessidade de honrar a Deus e às pessoas servindo nos negócios, aumentará durante e após a pandemia. Assim, devemos continuar a afirmar, equipar e mobilizar homens e mulheres, jovens e idosos, em todos os continentes, para crescer, moldar e remodelar negócios com Deus e para o bem comum. Também precisamos construir um ecossistema de líderes de empresas, governo e sociedade civil, para que diferentes tipos de riqueza possam ser criados e a saúde restaurada. E devemos incluir a igreja. Para esse fim, permita-me concluir com o apelo do Manifesto de Criação de Riqueza: ” Chamamos a igreja a abraçar a criação de riqueza como tema central para a nossa missão de transformação holística de povos e sociedades”.

 

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Mats Tunehag

Mats Tunehag é sueco, presidente da BAM Global, orador, escritor e consultor. Durante mais de 20 anos, tem se dedicado ao desenvolvimento de iniciativas de Business as Mission, BAM (Negócios como Missão), assim como a alianças estratégicas nacionais, regionais e globais de pessoas e iniciativas BAM.

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