Quem diz Missão serve no local e no global O Equilíbrio na Missão

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Por Carlos Scott

Quando falamos sobre missão local, global e transcultural, primeiramente estamos falando da missão de Deus (missio Dei). Deus é um Deus missionário. A missão existe simplesmente porque Deus ama as pessoas. Deus quer resgatar a humanidade de sua desumanização moral, espiritual, física, intelectual, social, econômica, política e cultural. O estabelecimento de Seu reino é a missão de Deus. Podemos conceber a missão como um movimento de Deus para o mundo, onde a Igreja é um instrumento para essa missão. A igreja tem o privilégio de participar, mas a missão não é sua e não pertence a nenhum projeto privado. “A Igreja encontra-se a serviço do movimento de Deus para o mundo” (1).

A missão global e transcultural implica chegarmos a todas as etnias da terra, ocupando-nos dos diferentes aspectos da vida das pessoas. A igreja é o agente da missão e não sua meta. A igreja não é o reino de Deus e sim sua comunidade. A igreja é comunidade do reino de Deus, que participa da missão universal (transcultural). A igreja não existe para si mesma, mas para servir à humanidade e anunciar a inauguração do reino de Deus na pessoa de Jesus Cristo. A igreja é missionária por sua natureza, dimensão e intenção.

Jesus é o reino de Deus encarnado. ”O reino de Deus não é uma ética nem uma ideologia social e sim a mensagem que se centraliza em uma pessoa, a pessoa de Jesus, o Messias» (2). O reino está presente, mas não se consumou; portanto, o reino está por vir. É um “já” e um “ainda não”. Em sua missão, a igreja testifica a plenitude da promessa do reino de Deus e participa da contínua luta deste reino contra os poderes das trevas e do mal.

Podemos chegar a dizer que a missão local e global (universal, transcultural, multicultural e intercultural) ocorre quando o povo de Deus se une à missão de Deus, cruzando intencionalmente barreiras sociais, políticas, culturais, idiomáticas, étnicas, de igreja a não igreja, em palavra e ação, anunciando a vinda do reino de Deus em Jesus Cristo, convidando as pessoas a se reconciliarem com Deus, consigo mesmas, umas com as outras e com o mundo, integrando-se à vida da igreja, com vistas à transformação do mundo até que o Senhor volte (Ver conceito de missão por Chuck Van Engen (3).

Alguns podem entender a missão global em termos de plantar igrejas em outras latitudes, como também em salvar os indivíduos da condenação eterna; outros a podem perceber em categorias eclesiásticas, como a expansão da Igreja ou de uma denominação específica, cruzando barreiras geográficas e culturais. Porém, se vamos entender o evangelho e a missão conforme toda a escritura, de Gênesis até Apocalipse, teremos que entendê-lo enfaticamente como “benção a todas as etnias” no espiritual, físico e material, abrangendo os aspectos sociais, culturais, políticos e econômicos. Ao falar de missão local e global, estamos falando de uma mensagem integral de salvação, que não conhece fronteiras de nenhuma ordem e está dirigida a todo ser humano, considerando a totalidade de sua pessoa.

A tensão entre o local e o global (universal)

Em geral há uma tensão entre o que se denomina missão global e missão local. Muitas vezes estes termos são contrapostos, sem nos darmos conta que fazem parte da mesma moeda. Devemos integrar as diferentes esferas, segundo expressa o texto de Atos 1:8. Jerusalém, Judeia, Samaria e até os confins da terra descrevem as esferas ou áreas de serviço onde o local e o global estão integrados. Fala-nos de ser testemunhas de forma “simultânea” e não fazer a tarefa de forma sequencial. Nenhuma área de serviço deve ser a mais importante. As mesmas devem estar balanceadas ou equilibradas, dando dignidade, simultaneidade e atenção a cada una.

O Pacto de Lausanne (4) expressa: “A igreja que não é missionaria é uma contradição em si mesma e apaga o espírito”. Segundo o pacto de Curitiba,(5).  “a missão não pode ser um departamento isolado da vida da igreja, mas fazer parte da própria essência dela, pois ‘ou a igreja é missionária ou não é igreja’. Assim, a missão envolve cada cristão na totalidade de sua vida”.

A igreja foi chamada e enviada para participar da missão de Deus. Este envio e mandato não são algo opcional. Os textos mais conhecidos são Mateus 28:18-20, Marcos 16:15, Lucas 24:46-48, João 20:21 e Atos 1:8, mas devemos afirmar que a Bíblia inteira nos dá o mandato para a missão e a evangelização. Deve haver uma moralidade da fé. Implica escutar o grito dos pobres, oprimidos e perdidos.

Devemos perguntar-nos: por que 27% da população mundial ainda não teve acesso ao evangelho ou teve pouco acesso a ele? O que acontece com os que não têm conhecido o evangelho? Nosso mundo tem hoje mais de 7 bilhões de pessoas, que vivem em 234 nações geopolíticas, mas em mais de 16.000 etnias. Dessas etnias, mais de 6.600 grupos permanecem como os menos alcançados integralmente ou menos evangelizados. A igreja precisa assumir um compromisso mais intencional na evangelização mundial.

Resumindo, dizemos que a Bíblia inteira mostra o plano de Deus de reconciliar consigo todas as coisas por meio de Jesus Cristo (Colossenses 1:15-20). A Igreja é o instrumento de Deus para levar a cabo seu plano. A missão de Deus é um atributo do próprio Deus, que se expressa em seu mover para redimir a humanidade e convida Sua igreja a participar. O mundo é o palco para a atividade de Deus e não devemos sair dele. O serviço ao mundo é um serviço a Deus e é um reflexo do reino vindouro de Deus, independentemente dos resultados que se obtenham.

A missão é universal e integral. A missão integral se não for universal se converte em localismo. É etnocentrismo e egoísmo. Ocupamo-nos de pessoas próximas e não das pessoas distantes. Por outro lado, a missão universal sem ser integral transforma-se em proselitismo. Corremos o risco de nos ocuparmos unicamente com o aspecto religioso, pessoal e interno, mas sem nos ocuparmos com todos os aspectos da vida das pessoas. Deus chama todos os crentes a participarem e a se comprometerem com sua missão.

Perguntas para reflexão e trabalho em grupos pequenos:

O que é missão? Podemos cuidar de toda a agenda do mundo? Quais seriam nossas ênfases?

Como podemos desenvolver um processo local com visão e compromisso globais?

(1) Schmitz, Josef, 1971: Die Weltzuwendung Gottes: Thesen zu einer

Theologie der Mission. Imba-Verlag, Friburgo-B.

(2) Davies, Pablo: Palestra O Reino de Deus e a Missão Transcultural, (Encontro Nacional da Rede Missões Mundiais, Córdoba, Argentina, 2002)

(3) Deiros, Pablo Alberto: Diccionario Hispano-Americano De La Misión. Casilla 711, 3000 Santa Fe – Argentina : COMIBAM Internacional, 1997

(4) Pacto de Lausanne, Congresso para a Evangelização Mundial, (Lausanne, Suíça, 1974)

(5) Pacto de Curitiba, Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (Curitiba, Brasil, 1976)

 

Carlos Scott  e sua esposa Alicia trabalham na Missão Glocal. Foi Presidente da COMIBAM International (2007-2009), Diretor da COMIBAM no Cone Sul (2000-2006) e Presidente da Rede de Missões Mundiais na Argentina (2003-2006).

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Martha Claros

Diretora da Área de Comunicação - COMIBAM Internacional

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