Fidelidade à Escritura: Um desafio de 500 anos

Por Kirk Franklin

O produtor cinematográfico disse: “A história repete a si mesma. Tem de fazê-lo; ninguém escuta da primeira vez”. O teólogo britânico Alister McGrath (2013:14) falou de forma mais eloquente: “A história nos alerta tanto dos erros do passado como da forma alarmante como os repete no presente”.

Há muito mais que podemos aprender ao honrar, celebrar e contemplar os eventos da Reforma Protestante ocorrida há 5 séculos. As igrejas ao redor do mundo têm celebrado o evento. Que podemos aprender e aplicar ao nosso contexto?

Encarnação e Palavra de Deus

A Reforma Protestante salientou que o acesso à Bíblia é a base da reforma espiritual. A fé cristã está construída sobre o cimento da ação divina da tradução — “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo.1:14). A Palavra Divina, Cristo, se fez carne e sangue e se mudou para a vizinhança (MSG).

Cristo, a Palavra Viva, deixou suas palavras para seus seguidores. Eles as legaram a nós. Considere como exemplo, o testemunho do Doutor Lucas, o evangelista, autor do evangelho de Lucas. Ele afirma (1:1-4): “Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído”.

Lucas se tornou crente depois que Cristo retornou ao céu. Lucas escreveu seus dois livros, Lucas e Atos, sob a direção do Espírito Santo. No relato do evangelho, usando a terminologia moderna, ele checou todos os relatos de Jesus na terra. Como conclusão, Lucas disse a seu amigo Teófilo: pode confiar no que escrevi; é um escrito fidedigno e confiável.

O próprio Jesus se refere às Escrituras disponíveis para Ele – o Antigo Testamento. Como está escrito em Mt.4:1-4, quando Jesus estava faminto durante seu jejum no deserto, o diabo tratou de tentá-lo para que transformasse as pedras em pão, se realmente fosse o Filho de Deus. Jesus respondeu: “está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”. Jesus estava citando Dt 8:3 porque conhecia perfeitamente todo o Antigo Testamento; era sua Bíblia. O Novo Testamento ainda não havia sido escrito.

O Apóstolo Paulo sabia que a palavra de Deus era necessária para seu crescimento espiritual e também para os convertidos por seu ministério. Ele escreveu aos crentes em Colossos: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração”. Cl.3:16.

O escritor aos hebreus em 4:12 declarou que Deus tem falado e que sua palavra sempre produz resultados: “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração”. E no versículo 13: “E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas”.

O Salmo mais longo está inteiramente dedicado ao tema da importância e da riqueza da lei de Deus. Este Salmo nos informa que Deus nos tem ensinado por meio de sua palavra e nos guia com ela. Leiamos os versos 9-12: “De que maneira poderá o jovem guardar o seu caminho? Observando-o segundo a tua palavra. De todo o coração te busquei; não me deixes fugir aos teus mandamentos. Guardo no coração as tuas palavras para não pecar contra ti.”

Todo este Salmo usa diferentes descrições de como a palavra de Deus nos ajuda em todos os aspectos da vida e através das trilhas da vida. É um dos versos mais ricos da Bíblia, que nos encoraja a usar a Bíblia.

Os reformadores que eram tradutores da Bíblia

Na igreja católica do século catorze, o uso da Bíblia Vulgata Latina estava reservado aos clérigos para ser utilizada nos monastérios. Na Inglaterra, os líderes eclesiásticos não permitiam a tradução para o inglês porque esse ato ameaçava a igreja e as autoridades da igreja acreditavam que eles perderiam o poder das receitas das pessoas comuns; e os plebeus não entenderiam a Bíblia e corromperiam os ensinamentos da mesma (Wegner 1999:273). Contudo, havia alguns personagens importantes na tradução da Bíblia: John Wycliffe, Martinho Lutero e William Tyndale.

1. John Wycliffe (meados de 1320-1384) é tecnicamente um pré-reformador. Era teólogo católico romano e foi motivado por sua inquietação contra a corrupção da igreja e de sua liderança. Era um acadêmico de Oxford, que inspirou, instigou e supervisionou a tradução da Bíblia para o inglês a partir da Vulgata Latina.

Wycliffe estava convicto de que se as pessoas comuns tivessem a Bíblia em seu próprio idioma, o inglês, “os poucos que conseguiam ler poderiam lê-la para outros e o evangelho poderia ser redescoberto” (Lutzer 2016: loc 309). Os Lollardos (membros de um movimento religioso de meados do século catorze, inicialmente guiados por Wycliffe) completaram a tradução depois da morte de Wycliffe, em 1384.

Infelizmente, a Bíblia de Wycliffe não era acessível porque ainda não havia sido inventada a imprensa. Por essa razão, somente os ricos podiam contratar um escriba para que a escrevesse. Atualmente ainda existem cerca de 250 cópias da Bíblia de Wycliffe, indicando a ampla distribuição da mesma, mesmo que as autoridades católicas tenham confiscado e destruído todas as traduções que puderam.

2. Martinho Lutero (1483-1546) é famoso por ter cravado suas 95 teses na porta do templo católico romano em Wittemberg, Alemanha, em 1517. Ele estava protestando contra as atividades dos sacerdotes católicos e até contra o próprio papa. Por meio de seu estudo de Romanos 1:17 “… o justo viverá por fé”, Lutero se deu conta que o perdão de pecados era um ato exclusivo de Deus, que o oferecia como um ato de graça. Este perdão não podia ser comprado ou pago com indulgências que os sacerdotes locais estavam vendendo para apagar os pecados das pessoas.

Lutero foi também um tradutor da Bíblia e decidiu colocar a Bíblia no idioma alemão corrente para que pudesse falar com poder ao coração de todos os alemães. Federico, o Sábio, havia planejado a fuga de Lutero das garras católicas para o castelo de Wartburg. Lutero, então exiliado e escondido da hierarquia católica romana, traduziu o Novo Testamento para o alemão a partir do grego em 1522, durante 11 semanas, e fez revisões posteriores. Este trabalho de tradução de Lutero teve tanto impacto que, na época de sua morte, em 1546, e graças à imprensa, havia em circulação mais de meio milhão de cópias da Bíblia em alemão.

3. William Tyndale (1494-1536) era um especialista em grego e hebreu. Queria que o rei da Inglaterra entendesse a importância de a maioria da população inglesa ter acesso à Bíblia (Ryken 2011:22). Contudo, as autoridades não lhe permitiram traduzir a Bíblia na Inglaterra. Ele, então, se refugiou na Alemanha. Tyndale traduziu dos originais em grego e hebreu e a imprimiu na prensa de Gutemberg. Por conta disso, foi reconhecido como o pai da Bíblia em inglês (Conally 1996:140).

A oposição da igreja católica inglesa, assim como perseguiu Wycliffe, rejeitou a tradução de Tyndale. A igreja católica inglesa proibiu a importação da Bíblia impressa de Tyndale da Alemanha, que entrava ilegalmente na Inglaterra. Como Tyndale persistia em imprimir e enviar secretamente para a Inglaterra, acabou sendo preso e queimado vivo em 1536, por ordem do bispo católico de Londres.

Reflitamos sobre a fidelidade à Palavra de Deus

Somos os descendentes destes grandes reformadores, os quais estavam comprometidos em colocar a Palavra de Deus nas mãos das massas. Que podemos fazer agora, após se passaram 500 anos?

1) A palavra de Deus questiona a tradição: os reformadores foram chamados a resgatar o evangelho das tradições errôneas da cristandade medieval (Lutzer 2016: loc 226). A Reforma é um evento histórico singular que, em certo sentido, não há de terminar nunca. A frase latina (supostamente de Santo Agostinho) afirma: “Ecclesia Semper reformanda est”, que significa “a igreja sempre deve ser reformada”. A igreja deve continuamente reexaminar-se a si mesma para manter sua pureza em doutrina e prática.

Nós vivemos no contexto do secularismo, consumismo e relativismo pós-moderno. Em meio a este clima de incerteza, a igreja e seus teólogos estão obrigados a enfrentar a dúvida com a fé. Esta é nossa tremenda responsabilidade porque as pessoas nos contextos seculares olham a Bíblia com indiferença e menosprezo, considerando-a como um livro antigo para sociedades que já não existem, e que promove leis de moralidade que são irrelevantes para as sociedades pós-modernas.

2) A Bíblia deve estar disponível a todos: Lutero, Tyndale e Wycliffe empreenderam grandes esforços para fazer a tradução da Bíblia para o alemão e o inglês.  Devemos reconhecer a importância das culturas nativas e o valor de seus idiomas maternos, porque todos os povos de todos os idiomas são criados à imagem de Deus. Ainda que tenham passado 500 anos, a tradução da Bíblia ainda é necessária para 1.800 idiomas. Desde a Reforma Protestante já foi traduzida para mais de 3.223 idiomas do mundo, a maioria nos últimos 150 anos (Wycliffe.net).

Em outubro do ano passado, eu estava na Ásia oriental e um dos pastores que conheci me contou que sua igreja tinha cinco anos de vida e 150 membros. Este pastor demostrou interesse nos tradutores da Wycliffe para que sua igreja pudesse ser treinada na tradução da Bíblia para povos que ainda não têm a Bíblia em seu idioma materno. Eles receberam capacitação da Wycliffe para vencer as dificuldades de comunicar o evangelho em outras culturas e agora trabalham em missões transculturais. Precisam de mentoria para que discipulem os novos crentes, para que eles, por sua vez, possam seguir proclamando a outros povos em outros idiomas. Esta igreja está focando nos pequenos grupos não alcançados de sua região e está disposta a trabalhar na tarefa missionária com o apoio de estrangeiros.

O desafio: ser reformadores valentes

A coragem dos reformadores, como Lutero e Tyndale, continua inspirando os fiéis seguidores de Jesus. O caráter de Cristo abre caminho para qualquer um que se esforça para servir com paixão e razão no reino de Deus. A audácia de reformadores como Lutero mobiliza uma nova geração de cristãos para que façam o correto por razões corretas—tudo para a glória de Deus. Então nosso desafio é que em oração sejamos valentes reformadores, que se envolvem no campo da teologia, a qual está afogando-se na condescendência e na possível derrota (Steele 2016:13). Precisamos depender do poder do Espírito Santo, encontrar descanso na soberania de Deus, ter prazer por meio do evangelho e a resolução de proclamá-lo e demonstrá-lo com todo o coração.

Referências:

Connolly, W., 1996, The Indestructible Book, Baker Books: Grand Rapids.

Hill, H., 2006, “The Vernacular Treasure: A Century of Mother-tongue Bible Translation”, in International bulletin of Mission Research, 30 (2) pp.82-88.

Lutzer, E., 2016, Rescuing the Gospel: The Story and Significance of the Reformation, Kindle Edition, Baker Books: Grand Rapids.

Ryken, L., 2011, The ESV and the English Bible Legacy, Crossway: Wheaton.

Steele, D.S., 2016 Bold Reformer: Celebrating the Gospel-centered Convictions of Martin Luther, Lucid Books, Houston.

Wegner, P., 1999, the journey from Texts to Translations: The origin and Developemente of the bible, Baker Academis: Grand Rapids.

Wycliffe.net, visto em 19 de agosto de 2017, (http://www.wycliffe.net/en/statistics).

Kirk Franklin é Diretor Executivo da Aliança Global Wycliffe.

 

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Kirk Franklin

Desde 2008, Kirk é o Diretor Executivo da Aliança Global Wycliffe (AGW) – que é composta por quase 100 organizações. Antes disso, foi diretor da Wycliffe Austrália por 16 anos. Com frequência, Kirk é convidado como orador em conferências e eventos ao redor do mundo – seu tema principal é sua visão de apoiar a liderança para que, colaborando dentro da missão de Deus, obtenha uma mentalidade global e missional, a fim de que possa ter um maior entendimento e capacidade para exercer uma boa liderança num contexto em constante mudança. Kirk é casado com Christine e têm três filhos adultos e dois netos. Vive em Melbourne, Austrália e é membro ativo da Warrandyte Community Church.

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