Explosão de Beirute: o que mudou depois de um ano?

Beirut-explosion

Por Maria Al Khoury

À medida que se aproxima o primeiro aniversário da catastrófica explosão no porto de Beirute, Maria Al Khoury, oficial de comunicações do SAT-7, com sede em Beirute, compartilha sua experiência da explosão, diz como o país não viu diminuir o sofrimento e crise e que o país precisa mais do que nunca é de esperança.

Não consigo sentir nada. O que aconteceu?

Em apenas um instante, tudo à minha volta havia mudado.

Este foi o caso de todas as pessoas que viveram a explosão de Beirute na noite de 4 de agosto de 2020.

Ainda me lembro como o chão abaixo de mim começou a tremer e eu corri. Senti todo o edifício tremendo, não apenas o chão. Dando a volta, vi minha irmã por um segundo, e depois não conseguimos ouvir nada. Tudo na sala foi jogado no ar e vidros se estilhaçaram por todo o lado. Senti que uma pedra, ou uma rajada de vento, bateu muito forte nas minhas costas. Ficamos assustadas e, por um momento, não conseguimos entender. O que foi isso tudo?

Ainda me lembro de como o rosto de minha irmã ficou pálido, e acho que isso também refletia meu rosto. Caminhamos chorando, com gotas de sangue caindo pelo caminho. Não sabia de onde vinham até descobrir as feridas no meu corpo e nos pés.

Fomos para a varanda e tudo o que podíamos ver era vidro quebrado por todas a rua; caos, fumaça preta e, em cima de tudo, poeira flutuando. Ninguém sabia o que tinha causado isso. Os rostos das pessoas estavam cobertos de ansiedade e medo.

Minha irmã pegou o telefone e ligou para meus pais. Estavam preocupados, querendo estar conosco. Descobrimos o que havia acontecido: uma explosão no porto.

Minha mãe chegou e pude ver a dor em seus olhos enquanto ela descrevia as ruas a caminho de nossa casa; pessoas morrendo, hospitais cheios, escombros por toda parte. Isto foi em Beirute, em 4 de agosto de 2020.

Chegaram ligações telefônicas a noite toda. Familiares, amigos, pessoas com as quais não estávamos em contato há muito tempo; reunidos depois que este acontecimento chocante atingiu Beirute.

Ainda me lembro daquela noite, como minha mãe e minha irmã tentaram remover o vidro e procurar por nossos pertences que foram jogados do prédio. Alguns nunca foram encontrados, mas agradeço a Deus porque não estávamos procurando por nossos entes queridos, como muitas pessoas. Alguns desses entes queridos também não foram encontrados.

Não pude me mexer corretamente por duas semanas. Minhas costas estavam muito doloridas por causa do vidro que me atingiu com muita força. Dormia sentada. Em outras palavras, não dormia. Ninguém conseguia dormir, e o fato de que alguns aproveitaram a oportunidade para invadir e roubar, já que quase todos os apartamentos da capital agora não tinham portas e janelas, tornava o descanso duplamente impossível. O roubo era especialmente propenso a ocorrer porque o Líbano vinha sofrendo uma crise econômica desde 2019.

Agora um ano se passou, e o que mudou?

Os libaneses ainda não sabem porque ocorreu a explosão que danificou sua capital e matou mais de 200 pessoas. As famílias das vítimas ainda estão lutando por seus direitos.

E a situação no Líbano só tem piorado com o tempo; crise econômica, aumento da pobreza, COVID-19, hospitais sem leitos, sem medicamentos, sem eletricidade e, recentemente, sem combustível. As pessoas me dizem que sentem que vivem em um país onde o governo esqueceu que elas existem. Não posso negar que fazem eco ao meu próprio coração.

Todos os dias sentimos que as ruas vão explodir, já que as pessoas não aguentam mais. O sentimento é que nós, o povo libanês, não descansamos. A explosão desencadeou novas ideias, inspirou mudanças e uniu pessoas através de linhas sectárias pela primeira vez em minha memória. Muitas pessoas pensaram em deixar o país, e muitas já se foram. Esperávamos que isso estimulasse o governo a tomar medidas, mas isso ainda está por acontecer.

Cada vez é mais difícil para os jovens começarem a dar um passo em direção ao seu futuro. A situação econômica está afetando todos os setores, fazendo com que toda a economia seja disfuncional.

De alguma maneira, as pessoas estão revivendo o trauma da explosão de Beirute todos os dias: quando as pessoas morrem às portas dos hospitais, quando os cidadãos são feridos em protestos, quando os pacientes não conseguem remédios para doenças crônicas ou leves.

Cada rua de Achrafieh, meu distrito, nos lembra da explosão. Prédios danificados; o porto que parece uma ruína; os nomes e fotografias das vítimas pendurados nas paredes. Às vezes, por um segundo, posso ver a cena novamente, em cada detalhe.

O que o povo libanês precisa é de esperança. Espero que isto permita que as pessoas continuem a viver em um país que está perdendo tudo o que tem, dia após dia. Dou graças a Deus todos os dias por nos ter mantido a salvo naquela noite devastadora e catastrófica, e oro por todas as famílias que perderam seus entes queridos naquele momento em que tudo mudou.

Maria Al Khoury se uniu ao SAT-7 em junho de 2021 como Oficial de Comunicações no Escritório Internacional. É recém graduada pela Universidade Libanesa Americana, com título em Jornalismo Multimídia. Trabalhou em vários eventos como jornalista, coordenadora de redes sociais e fotógrafa.

Fonte: SAT-7

 

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Martha Claros

Diretora da Área de Comunicação da COMIBAM

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