A Pandemia e o Trabalho Missionário

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Por Paulo Feniman

Nestes dias de imensa incerteza, muito tem se falado e discutido sobre o futuro da obra missionária. Definitivamente, penso que é um assunto extremamente relevante e essencial, mas somente se ele estiver focado na ação missionária e não na Missão de Deus (Missio Dei) propriamente dita. A missão de Deus, apesar de muita gente querer insistir, não vai mudar. Certamente, a obra missionária como fazemos hoje, essa sim já mudou e vai continuar mudando. Não vejo mal nisso. Mudanças, para melhor, sempre são bem-vindas.

No meio de toda esta pandemia, uma coisa é certa: ganhamos tempo para pensar, refletir, analisar a situação em que estávamos, estamos e estaremos.

Ao longo dos anos, entendo que o movimento missionário brasileiro se tornou muito pragmático, o que não é necessariamente ruim. Mas, o pragmatismo pode provocar, em alguns casos, uma atitude de se desconsiderar a ação de Deus, baseando a nossa ação unicamente em nossos planos e metodologias. Por este ponto de vista, a pandemia nos forçou a parar e a perceber que nossos planos, projetos e métodos não eram tão infalíveis. Muitos deles foram afetados em cheio com a chegada da pandemia e com a paralisação de muitas atividades que vínhamos desenvolvendo.

Eu não tenho ignorado os riscos que essa pandemia pode trazer à vida das pessoas e às nossas organizações. Quando fazemos uma pequena leitura do universo à nossa volta, percebemos dois grupos distintos. Um deles que minimiza os efeitos e resultados da COVID-19, achando que tudo voltará ao normal, e outro que maximiza os efeitos da pandemia, anunciando o caos ou, como vi recentemente, usando a expressão “Era do Gelo Missionária” para prever os quadros mais graves.

Acredito que toda essa discussão tem me levado a me posicionar de uma forma mais otimista do que a grande maioria dos líderes e pessoas com quem tenho conversado. Tenho sido acusado de não olhar com atenção aos efeitos atuais e futuros que a pandemia está trazendo e irá trazer. Meu otimismo é baseado na minha crença de que Deus continua sendo Deus e sua missão continuará a ser realizada até que o último indivíduo da terra ouça as boas novas de salvação. Nossas práticas e projetos vão mudar, mas a missão de Deus continuará, com ou sem a nossa presença.

Outro fator importante é que entendo ser temeroso tentar prever o futuro da ação missionária.  Ainda estamos em meio a incertezas e, aparentemente, nossas dificuldades serão regionais e pontuais, muito diferentes de outros movimentos missionários. Esperar que os impactos para brasileiros sejam os mesmos que para americanos ou asiáticos é muito simplista. Vou pontuar isso mais adiante. Outros ousam apresentar sugestões ou propostas para o futuro imediato, mas entendo que ainda estamos vivenciando o dia a dia e será preciso esperar um pouco mais. Então, teremos uma ideia mais clara de como fomos atingidos para que finalmente possamos visualizar, discutir e projetar o futuro.

Quando me refiro ao meu otimismo, levo em conta o fator que algumas culturas missionárias, a meu ver, estão em desvantagem. O movimento evangélico brasileiro sempre lutou muito para estabelecer sua ação missionária. Nossa economia sempre foi desfavorável e por isso acabamos nos tornando experts no envio missionário sob pressão econômica. Nós sempre reclamamos muito da nossa crise econômica, mas olhando o momento em que vivemos eu diria que ela tem nos ajudado a passar melhor por este momento. Tudo isso deveria ajudar a sermos mais resilientes diante das dificuldades que estão sendo postas a nossa frente.

Tenho visto pesquisas e, até mesmo, ouvido diferentes líderes globais dizerem como há uma geração de missionários brasileiros que sabem lidar bem com as diversidades e se mantém firmes em seu chamado e propósito ministerial. São todos? Obviamente que não. Mas, hoje contamos com uma segunda ou terceira onda de missionários brasileiros presente no campo que tem suportado essa e outras tantas crises que têm nos assolado com o passar dos anos.

A revista Christianity Today menciona em uma de suas matérias que missionários do Sul Global aparentemente têm vantagens diante de outras culturas missionárias. A matéria menciona especialmente missionários da África e da América Latina:

“Suportar tais dificuldades requer fé e perseverança significativas, que muitos no Sul Global têm em abundância. Essa semente espiritual tem sido frequentemente moldada por décadas de pobreza, guerra, colonização e instabilidade política. Crescer na pobreza, não sendo tão privilegiado, nos deu a sensação de que podemos fazer muito com muito pouco.”

Dito isso, penso que algumas perguntas para reflexões precisam ser feitas antes de projetarmos qualquer cenário.

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Paulo Feniman

Paulo Feniman é Diretor Executivo da MIAF/AIM SOUTH AMERICA - Missão para o Interior da África, onde coordena a mobilização e envio de missionários sul-americanos para diferentes povos africanos. Paralelamente ao seu trabalho com MIAF, Paulo tem alimentado uma paixão pela unidade da igreja e do trabalho missionário. Desde de 2010 tem se envolvido diferentes conexões globais como IPA - International Partnering Association, onde tem ajudado diversas organizações e ministérios na formação de parcerias e alianças estratégicas para o avanço do evangelho entre povos não alcançados, COMIBAM - Cooperação Ibero-Americana de Missões e AMTB - Associação de Missões Transculturais Brasileira. É casado com Patrícia, pai de Felipe e Gabriela.

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