A escuridão é um poderoso lembrete para o missionário

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Por Sarah Alexander

Ontem, ao anoitecer, faltou eletricidade em nosso bairro. Parei de preparar o jantar na esperança de que a energia voltasse rapidamente, mas, no final, desfrutamos de uma refeição à luz de velas e relembramos nossos primeiros dias no campo missionário, quando a eletricidade não era interrompida por horas e sim por dias e semanas.

No final dos anos 90, os novos países soviéticos da Ásia Central ainda estavam aprendendo a trabalhar juntos para compartilhar recursos, algo assim como irmãos que ficam sem supervisão e discutem sobre como compartilhar a última banana. Exceto que as “bananas” eram os elementos básicos necessários para manter o calor no inverno: carvão, eletricidade, gás. Troncos de árvores trituradas se alinhavam no pátio atrás de nosso prédio de apartamentos, onde nossos vizinhos pegavam lenha para cozinhar. Aquecíamos nosso apartamento com um aquecedor portátil de querosene. O dia e a noite eram escuros, pesados e frios.

Estou agradecida de que esses anos tenham ficado para trás. Agora raramente temos que lidar com problemas de serviços públicos. Nossa casa é aquecida e bem iluminada. Mas ontem, enquanto esperávamos que voltasse a luz, lembrei de minhas perguntas ao Senhor naqueles  primeiros e difíceis dias: Por que estamos aqui? Na escuridão e no frio? Tão distantes de casa?

Sua resposta me fez lembrar da história de Abraão suplicando a Deus que perdoasse a cidade de Sodoma. Abraão voltou uma e outra vez a Deus, pedindo que tivesse misericórdia pelo bem dos justos que viviam ali. E como, imagino, o desejo de Deus era sempre perdoar a cidade, Deus cedeu, em resposta à intercessão de Abraão.

Por que Deus nos chamou a essa difícil situação há 25 anos? Porque ao viver no frio e na escuridão, com vizinhos que não conheciam Jesus, podíamos interceder de uma maneira única por um povo a quem Ele desejava profundamente resgatar. Éramos as luzes nesse lugar escuro. Poderíamos seguir lembrando a Deus suas promessas de construir sua igreja ali.

Não creio que tenha sido o inconveniente de um corte de luz temporário que despertou essa lembrança ontem à noite. Em vez disso, creio que é o estresse acumulado da pandemia mundial. Assim como os apagões inesperados, os fechamentos em toda a comunidade, as quarentenas e as enfermidades do ano passado nos deixaram cansados e frustrados. Não param de chegar.

É fácil para meu coração perguntar o porquê. Por que está passando isto? Quando acabará? Por que estou aqui quando nem sequer posso receber gente em minha casa ou reunir-me com um amigo para estudar a Bíblia?

Todos nós, e nossas comunidades, sentimos o peso desta escuridão. Todos buscamos madeira para queimar e conseguir um pouco de calor. Todos necessitamos de esperança. E o Espírito me recorda que o papel do intercessor é necessário agora mais do que nunca.

Deus tem a cada um de nós onde estamos por uma razão. Somos os intercessores, como Abraão, suplicando a Deus que mostre misericórdia a nossos vizinhos, e somos os justos que entendemos que Deus não terminou de trabalhar em nossas cidades.

Enquanto nos aproximamos da primavera e buscamos um respiro na pandemia, penso nos povos não alcançados de nossa cidade que ainda não escutaram o evangelho de Jesus. Neste ano, a comunidade curda está em meu coração. Suas famílias criaram raízes na Ásia Central quando José Stalin os enviou em vagões de gado do leste da Rússia até as áridas estepes. Se agarram à sua identidade muçulmana apesar da falta de esperança que encontram ali. Talvez este seja o ano em que se plante uma igreja entre eles.

Quando faz frio e está escuro e as perguntas do porquê ressoam em meu coração, quero escolher agarrar-me à esperança e mantê-la. Quero ser uma intercessora como Abraão, lembrando a Deus que há gente aqui, que ainda espera ser resgatada.

Sarah Alexander* trabalha com IMB entre os povos da Ásia Central e é escritora colaboradora.

Fonte: International Mission Board

 

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Martha Claros

Diretora da Área de Comunicação da COMIBAM

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