A Bíblia em espanhol comemora 450 anos

 

A primeira Bíblia completa em espanhol foi publicada em 1.569 e neste ano de 2.019 comemora seus 450 anos. Esta celebração tem uma relevância singular por se tratar da Palavra de Deus traduzida para a segunda língua mais falada do mundo.

Precisamente, é esta Bíblia que tem permitido levar o Evangelho a milhões de pessoas ao redor do mundo, inclusive sendo base de consulta para muitos que têm trabalhado na tradução para outros idiomas. Qualquer missionário (a) pode identificar-se plenamente com a Bíblia do Urso, de Casiodoro de Reina.

Cristian Gómez

O Diretor do Museu da Bíblia no México, Maná, Museu das Sagradas Escrituras, Cristian Gómez, nos relata as origens da Bíblia Reina Valera.

Casiodoro de Reina desejava que sua nação conhecesse a Cristo, porque ele pertencia a uma nação católica e sua principal preocupação era que as pessoas encontrassem a Cristo através da Bíblia em um idioma que pudessem compreender.

“Casiodoro teve a firme convicção de levar o evangelho para sua nação e, por isso, se dedicou à tradução da Bíblia para o espanhol, apesar de seu trabalho estar sob perseguição por parte da inquisição espanhola. O Rei Felipe II colocou sua cabeça a prêmio. Também sofreu perseguição por parte de alguns setores protestantes. Esta mesma realidade é experimentada por milhares de missionários ao redor do mundo, que se dedicam à tradução bíblica”, afirma.

Se quisesse que a Bíblia fosse recebida em um país católico, Casiodoro teria que conservar a ordem dos livros conforme estão na Vulgata, (tradução da Bíblia hebreia e grega para o latim) e conservar os livros Deuterocanônicos.

Por causa da perseguição, Casiodoro não colocou seu nome em seu trabalho, pois a inquisição havia publicado uma lista de autores proibidos e ele estava nesta lista.

A primeira publicação foi denominada a Bíblia do Urso devido a um emblema que aparecia em sua capa: um urso junto a uma árvore, tratando de alcançar uma colmeia para pegar seu mel, que era o logotipo do impressor Mattias Apiarius. Esta ilustração foi utilizada porque se queria evitar o uso de ícones religiosos, pois naquela época estava proibida qualquer tradução das Sagradas Escrituras para línguas locais (a tradução oficial existente era em latim).

Por que se chama Reina Valera

Casiodoro de Reina foi um monge que conheceu a Cristo. Trabalhou escondido ao longo de 12 anos e nestas circunstâncias foi realizando a tradução, além de seu trabalho missionário e pastoral. Após sua morte, outro monge, que foi seu companheiro, chamado Cipriano de Valera, revisou a tradução de Casiodoro e fez ajustes mínimos, de tal maneira que até certo ponto, considera Cristian, é injusto chamá-la Reina Valera porque o trabalho é de Casiodoro.

Valera dedicou 20 anos de sua vida à revisão do trabalho de seu companheiro de claustro. Como resultado, a referida versão saiu publicada em 1602 e foi chamada a Bíblia do Cântaro, porque na capa podia ser vista estampada a imagem de dois homens: um está plantando uma árvore, enquanto o outro a rega com água que sai de um cântaro.

Segundo alguns especialistas, esta ilustração foi utilizada em alusão ao texto bíblico de 1 Coríntios 3:6: “Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus”.

Somente por causa desta revisão, por mais de 400 anos se pensou que o trabalho era de Cipriano de Valera. Ao se ver uma destas Bíblias de 1870 o 1900 se dizia a “Bíblia de Cipriano de Valera”. Foi só em princípios do século XX que se descobriu a história e se reconheceu que o verdadeiro tradutor foi Casiodoro de Reina.

O que torna esta versão tão especial

Segundo Cristian Gómez:

  • Do trabalho realizado por Casiodoro é importante destacar seu valor literário por dois motivos: primeiro, pela qualidade de sua língua, que a converte em um monumento da literatura ibero-americana; e segundo, por sua extrema fidelidade ao original, já que adota o tom primordial das tradições hebreias.
  • Por ser a primeira Bíblia completa em espanhol, porque naquela época havia algumas traduções parciais do Antigo e Novo Testamento, mas nunca uma Bíblia completa.
  • É uma Bíblia do exílio, tendo sido traduzida para o espanhol fora da Espanha.
  • É uma Bíblia traduzida das línguas originais.
  • Por mais de 400 anos esteve proibida na Ibero América. Em nossos países, filhos da contrarreforma, não se podia dar a Bíblia ao povo. Quando começou a chegar a nossos povos latino-americanos, no final do século XIX, foi com perseguição. Muitos colportores morreram por levar esta Bíblia aos povos.
  • Finalmente, é a Bíblia geral para a maioria dos evangélicos, a mais amada, por meio da qual conheceram o evangelho e com a qual têm crescido em sua vida espiritual.

Serviu como base para a tradução a outros idiomas

A Bíblia Reina Valera tem sido fundamental na tradução para outros idiomas, sobretudo na Ibero América, afirma Cristian, porque muitos dos tradutores da Bíblia para línguas indígenas não leem grego nem hebreu. Na realidade, muitos deles traduziram utilizando a Reina Valera, pois tem sido a mais publicada e difundida no mundo cristão. Inclusive em muitos grupos étnicos, quando uma tradução bíblica em sua língua está pronta, os especialistas bilingues que falam espanhol a comparam com a Reina Valera, e se não se parece, rejeitam sua tradução.

“Então não somente os linguistas ou os especialistas do grego e do hebreu se basearam na Bíblia Reina Valera. Também nós teríamos que ter muito cuidado para haver uma certa harmonia nos textos, porque do contrário podemos rejeitar um trabalho tão importante como é uma tradução bíblica”.

Estamos tão acostumados com a Reina Valera que quando aparece uma nova tradução e há uma mudança, pensamos que é uma falha e isso gera uma falta de credibilidade.

O problema é que não conhecemos as ciências bíblicas porque não temos originais da Bíblia, esclarece Cristian, mas graças a Deus temos ao redor de dez mil manuscritos gregos e hebreus das línguas originais. Esses manuscritos, contudo, têm variações, porque eram copiados a mão e sempre acabava produzindo diferenças. Então, a tarefa de um biblista é comparar manuscritos e variações para tratar de aproximar-se por meio dessa comparação, do texto original.

Quem deveria comemorar os 450 anos

Cristian Gómez, disse ter escrito às 27 Academias de Línguas no mundo para que a celebrem. Considera que a Bíblia do Urso deveria ser comemorada em todo o mundo, primeiro porque é a Palavra de Deus em uma das línguas mais importantes do mundo, e segundo porque é uma “Obra Grandiosa” e é uma das grandes literaturas da humanidade. Deveriam celebrá-la todos os que falam espanhol. O Livro dos livros chegou há 450 anos e enriqueceu enormemente muitos dos intelectuais do século XX. Muitos latino-americanos cresceram com a Reina Valera, se familiarizaram com ela e a citam em seus livros.

“Teriam que comemorar todas as Sociedades Bíblicas, todos os seminários, todas as academias de literatura e poesia, todas as igrejas, e essa é a consciência que queremos despertar. Não queremos centralizar nem podemos fazer tudo, só queremos encorajar e despertar a consciência para que todo mundo o faça. Cada um fazendo em seu país para impactar a Ibero América. Então, por um lado, se despertaria o interesse nos que não leem a Bíblia e, por outro, se despertaria o interesse na igreja para dar à Bíblia o lugar que lhe corresponde, como a máxima autoridade da doutrina e da prática eclesiástica”, conclui.

 

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Martha Claros

Diretora da Área de Comunicação - COMIBAM Internacional

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